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A resistência ao golpe de 2016

Eu li A resistência ao golpe de 2016 em fevereiro deste ano de 2017 e, como ainda não havia falado a respeito, resolvi fazê-lo hoje, dia em que o atual Presidente da República, o golpista Michel Temer, convocou o Exército para enfrentar e conter manifestantes que protestavam por sua saída do Governo e por eleições diretas. O uso do Exército para tal finalidade é flagrantemente inconstitucional e só demostra a vileza, a torpeza e a podridão do ser (e de sua trupe) que hoje comanda o Executivo brasileiro. Enfim, Temer deu o pulão e agora entra em desespero porque o povo não o vê com legitimidade para governar e muito menos aceita que reformas sejam tratadas sem o devido debate popular e por políticos criminosos (quase todos golpistas). Ou seja, em tempos tão sombrios.

O livro em questão é excelente material para quem quer conhecer os passos podres do golpe. Ele é composto de 103 textos, escritos por excelentes juristas. Há uma preocupação em explicar o porquê do julgamento de Dilma ter sido político, desvenda o papel do Judiciário e da mídia na crise, alerta sobre a misoginia no golpe, sobre a regressão do Estado de Direito no Brasil, atenta para o fato de que a democracia contemporânea ainda é frágil e está sendo totalmente amputada pelo capital, dentre outros vários tópicos, todos muito interessantes, importantes, informativos.

Um ótimo documento sobre a nossa história, tratada no âmbito do  Direito, da Política, da História propriamente dita e também sob o olhar do Feminismo. Indico fortemente a todos.

“Dirão que exagero na dramaticidade, mas penso que não. A democracia foi literalmente tomada de assalto. Golpeada implacavelmente por forças movidas por um ódio político inédito na história recente e que somente encontra paralelo em 1964 e nos anos posteriores ao golpe..

.. É difícil encontrar forças para permanecer resistindo, quando o espaço de resistência ao autoritarismo encolhe cada vez mais. É como se nos faltasse o ar, expulso dos pulmões por um desleal soco no estômago. E sem oxigênio não se sobrevive.”  (trecho do texto do professor Salah H.Khaled Jr.)

Estamos juntos, professor.

A história não absolverá quem nos fez passar por tudo isso; quem, apenas com foco nos seus interesses pessoais, tem conseguido minar o Estado de Direito Brasileiro e a tão jovem e desejada democracia.

 

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Mais uma leitura infantil: Bairro Feliz

Acabamos Roverandom com sucesso! Os meninos compreenderam bem a história e ficaram tristinhos quando ela chegou ao fim.

Partimos agora para o livrinho infantil Bairro Feliz, da escritora Maria Lisia Corrêa de Araújo, já falecida e que foi grande amiga de minha mãe. Ela costumava nos presentear com um exemplar de cada obra sua, com muita gentileza. Este mesmo está autografado pra mim e foi guardado com carinho.

Maria Lysia Corrêa de Araújo nasceu em 1921 e faleceu em 2012 (com 91 anos). Sua obra foi diversificada: fazia crítica teatral, crônicas, romances e contos. Tenho pra mim que era uma mulher à frente de seu tempo. Trabalhou como atriz em várias cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte,  participando de grupos teatrais importantes como o Arena, o Oficina, a Cia Maria-Della Costa, a Cia. Tônia-Autran, entre outras. Trabalhou com diretores experientes e encenou peças de conteúdos ideológicos profundos em uma época de silenciamento e repressão.

Intelectual, interessante, metódica (nadava praticamente todos os dias pela manhã, fazia chuva ou sol, mesmo quando já estava bem idosa), era uma querida.

A última vez que a vi comprava pão em uma das padarias do bairro e conservava os mesmos lindíssimos olhos azuis.

 

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Roverandom, de Tolkien

Roverandom está sendo o primeiro livro mais elaborado que eu leio para os meninos. Nós lemos praticamente todos os dias. Falta-lhes a história apenas em momentos de muito cansaço ou se estão indo para a cama mais tarde do que o ideal. Então, dia após dia, lemos as histórias que são pré determinadas para a idade deles.

Mas tenho notado que eles já conseguem acompanhar histórias maiores, textos mais sofisticados, e, por isso, resolvi começar com um autor apreciado aqui em casa.

Quando retorno a leitura no dia seguinte, faço primeiro um apanhado do já ocorrido. Peço ajuda aos dois e vou apoiando. O menino, falador que só ele, passa na frente e sai desandando com a história. Ela é mais reservada e ouve. 🙂

Ambos estão bem satisfeitos com o passo adiante que demos com este livro. Não largamos os anteriores, claro que não. O dois estão em franco processo de alfabetização e os livrinhos já familiares são fenomenais.

E daí em diante teremos muito mais. Monteiro Lobato nos aguarde!

 

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Pequena biografia de Dostoiévski

Dostoiévski nasceu em 30 de outubro de 1821, num hospital para indigentes onde seu pai trabalhava como médico. Ele era o segundo dos sete filhos nascidos do casamento entre Mikhail Dostoievski e Maria Fiodorovna. A mãe do escritor morreu em 1837, de tuberculose e, no ano seguinte, Fiódor ingressa na Escola de Engenharia Militar de São Petersburgo, onde aprofunda conhecimentos das literaturas russa, francesa e outras. Em relação a seu pai, vários textos dizem que foi assassinado em 1838, pelos próprios servos de sua propriedade rural, que o consideravam autoritário. Alguns biógrafos afirmaram que foi quando Dostoievski teve sua primeira crise epilética. Joseph Frank, famoso biógrafo de Dostoiévski, diz haver provas de que o pai dele teria morrido, na verdade, de um AVC e que os boatos em contrário foram propagados para diminuir o preço da propriedade dos Dostoiévski, pela qual um vizinho mostrava interesse. Tal hipótese é pouco aceita pelo que percebi de minhas buscas e leituras.

Em 1844, com apenas 23 anos e pais já falecidos, abandona a carreira militar e escreve seu primeiro romance, Gente Pobre, publicado em 1846, com grande recepção da crítica.  Desde esta época começa a contrair algumas dívidas e a sofrer de uma enfermidade nervosa, frequentemente confundida com sua epilepsia, que começou a se manifestar muitos anos mais tarde.

É acusado de  frequentar círculos revolucionários de Petersburgo e, em 1849  – com 28 anos -, é preso e condenado à morte. No último minuto, entretanto, teve a pena comutada para 4 anos de trabalhos forçados, seguidos por prestação de serviços como soldado na Sibéria. Tal experiência foi retratada no livro Recordação da casa dos mortos (publicado em 1961), uma coleção de fatos e eventos ligados à vida nestas prisões.

Façamos um adendo para explicar que Nicolau I, imperador Russo da época, era extremamente conservador e seu reinado foi marcado por uma grande expansão territorial, repressão de dissidentes, estagnação econômica, políticas ruins de administração, burocracia e guerras frequentes. Enquanto isso,  a Europa ocidental estava em polvorosa. Era justamente o período das Revoluções de 1848 (Primavera dos povos), série de revoluções que eclodiram principalmente em razão de regimes governamentais autocráticos, de crises econômicas e da falta de representação política das classes médias, dentre outras.

Influenciados pelas Revoluções de 1848, um grupo de intelectuais progressistas (dentre eles Dostoiévski) começou a se reunir e, apesar de não terem um ponto de vista uniforme sobre questões políticas (o organizador era Mikhail Petrashevski, um seguidor do socialista utópico francês Charles Fourier), a maior parte deles se opunha à autocracia do Tsar e ao sistema de semi-servidão. Este grupo ficou conhecido como o Círculo Petrashevski e foi oficialmente proibido pelo governo do czar Nicolau I, que o confundiu com uma organização subversiva revolucionária. O círculo foi banido em 1849 a seu mando, seus membros foram detidos e alguns fuzilados.

O Círculo Petrashevski era dedicado principalmente à discussão das condições de vida na Rússia, centrada nas obras da imensa biblioteca de obras proibidas de Petrashevsky, obras que, segundo os registros da sociedade, Dostoiévski consultou em várias ocasiões. Na verdade, Dostoiévski não ia às reuniões do Círculo há mais de três meses quando foi preso, e participava realmente de uma organização radical liderada por Nikolai Spechniev, radical que se tornaria o protótipo para Nikolai Stavróguin, protagonista de Os Demônios. Essa organização, porém, não foi descoberta pelas autoridades e sua existência só veio a público em 1922.[17]

Em 23 de abril de 1849, ele e os outros membros do Círculo Petrashevski foram presos. Dostoiévski passou oito meses na Fortaleza de Pedro e Paulo até que, em 22 de dezembro, a sentença de morte por fuzilamento foi anunciada. Em 23 de dezembro, os membros foram levados ao lugar da execução, e três membros do grupo, inclusive o próprio Petrashevski, foram amarrados aos postes em frente ao pelotão. Dostoiévski era um dos próximos, e se lembrou, posteriormente, de ter dividido seu tempo para se despedir dos amigos e refletir sobre sua vida. Quando disse a Nikolai Spechniev, que se encontrava atrás dele, “Nós estaremos com Cristo”, o revolucionário respondeu “Um pouco de poeira”. Antes da ordem para o fuzilamento, chegou uma ordem do Czar para que a pena fosse comutada para prisão com trabalhos forçados e exílio. Depois os membros souberam que a ordem havia sido assinada há dias, mas que o czar exigira a falsa execução como uma punição a mais. Dostoiévski recebeu os grilhões e partiu para o exílio na noite de Natal. Todos esses fatos foram contados pelo escritor em uma carta a seu irmão Mikhail Dostoiévski, na qual ele faz várias referências à obra “Os Últimos Dias de um Condenado à Morte”, de Victor Hugo.”

A condenação, enfim, ocorreu por Dostoievski ter supostamente conspirado contra Nicolau I. A partir de então começou a escrever Memórias da Casa dos Mortos, baseado em suas experiências como prisioneiro; ele teve condições de descrever com grande autenticidade as condições da vida nas prisões e sobre o caráter dos condenados que nelas viviam. Interessante que os condenados eram proibidos de escrever memórias e relatos, então Dostoiévski disfarçou a obra como ficção, dizendo-a obra de um homem preso por assassinar a esposa em uma crise de ciúmes. Por anos muitos acreditaram que esse havia sido de fato o crime do escritor.

Em 1857, aos 36 anos,  Fiódor casa-se com Maria Dmitrievna e, três anos depois, de volta a Petersburgo, funda com o irmão a revista literária O Tempo, fechada pela censura em 1863. Lança posteriormente outra revista, A época, onde imprime trechos de Memórias do Subsolo. Aos 43 anos perde a mulher e o irmão e, em 1866, publica Crime e Castigo. No mesmo ano de Crime e Castigo conhece Anna Grigórievna, estenógrafa que o ajuda a terminar o livro O jogador e que será sua mulher até o fim da vida. Em 1867, cheios de dívidas, embarcam para a Europa, fugindo dos credores. Neste período escreve O idiota (1868) e O eterno marido (1870).

Retorna a Petersburgo e publica Os demônios (1871), O adolescente (1875) e começa a edição do Diário de um escritor (1873-1881). Em 1878, com 57 anos, perde o filho Aleksiêi, de apenas três anos e começa a escrever Os Irmãos Karamázov, que será publicado em fins de 1880. Dostoiévski falece em 28 de janeiro de 1881, com 58 anos, deixando várias obras inconclusas, dentre elas a continuação de Os irmãos Karamázov, considerada um dos principais monumentos da história da literatura universal.

OS FILHOS DE DOSTOIÉVSKI

Dostoievski teve quatro filhos, sendo que dois deles morreram ainda na infância. A filha Lyuba, não teve filhos; logo, seus herdeiros descendem de seu filho Fyodor, que teve dois filhos: um deles – também Fyodor, assim como o avô e o pai e que morreu ainda muito jovem. Do outro, Lopatin, descendem os herdeiros vivos do grande autor.

BIBLIOGRAFIA DE DOSTOIÉVSKI

1846 – Gente Pobre

1846 – O Duplo

1847 – A Senhoria

1848 – Noites Brancas

1849 – Nietotchka Niezvanova

1859 – O Sonho do Tio

1859 – A Aldeia de Stiepântchikov e Seus Habitantes

1861 – Humilhados e Ofendidos

1862 – Recordações da Casa dos Mortos

1862 – Uma História Lamentável

1863 – Notas de Inverno Sobre Impressões de Verão

1864 – Memórias do Subsolo

1865 – O Crocodilo

1866 – Crime e Castigo

1867 – O Jogador

1869 – O Idiota

1870 – O Eterno Marido

1872 – Os Demônios

1873 – Diário de Um Escritor

1873 – Bóbok

1875 – O Adolescente

1876 – O Mujique Marei

1876 – A Dócil

1877 – Sonho de um Homem Ridículo

1879 – Os Irmãos Karamasov

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Gente pobre, de Dostoiévski

Gente pobre é o primeiro romance de Dostoiévski e foi imediatamente aclamado pelo público, fazendo do autor um escritor consagrado da noite para o dia.

O livro é uma troca de cartas entre Makar Diévuchkin e Varvara Alieksiêievna, moradores de um dos bairros miseráveis de Petersburgo. Ele um funcionário público ordinário, um senhor de meia idade, e ela uma jovem órfã injustiçada, ambos pobres e praticamente jogados à própria sorte na Rússia de Nicolau I.  Há uma expressão dos afetos com grande sensibilidade e, ainda que apenas por cartas (de amor ou fraternais?) trocadas por ambos, traz ao leitor as condições de grave injustiça social em que viviam as populações da cidade e do campo daquela época. As vidas sofridas e os pequenos acontecimentos do dia-a-dia refletem as individualidades que se tornam insignificantes pela miséria.

Vale citar um trecho do posfácio do livro da Editora 34, da tradutora Fátima Bianchi. Nele a especialista diz que:

“No “homem sem importância”, na mais limitada natureza humana, ele procura mostrar um ser pleno, capaz de pensar e sentir, e mesmo de agir, da maneira mais profunda, apesar de sua pobreza e humildade social.

A intenção do escritor, na representação do cotidiano de seu personagem em sociedade, é demonstrar, através da imagem que ele tem de si mesmo, que sua miséria exterior não espelha o que lhe vai nas profundezas do coração.”

Os contos “O chefe da estação”, de Púchkin e “O capote”, de Gógol, são citados na obra, indicando as então principais influências de Dostoiévski.  Makar Diévuchkin, a propósito, lembra a todo instante o Akaki Akakievich de Gógol, ambos copistas, funcionários inexpressivos de repartição pública de Petersburgo, homens sem importância, pobres e desolados por serem privados do objeto de seu amor obsessivo.

É muito interessante a maturidade de Dostoiévski. Aos 25 anos – o livro foi escrito em  1845 e publicado em 1846 – conseguiu sair do completo anonimato para a glória, tendo sido imediatamente aclamado por poetas consagrados; Dmitri Grigoróvitch, por exemplo, logo após ler os  manuscritos de Gente pobre, anunciou o surgimento de um novo Gógol.

A predição de um grande futuro ao jovem escritor confirmou-se formidavelmente.

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O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação

Haruki Murakami é um fenômeno mundial. O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação vendeu mais de 1 milhão de exemplares no Japão só na semana em que foi lançado. Também  atingiu, ao redor do mundo, o primeiro lugar das listas de mais vendidos. Até este ano eu não o conhecia, mas me emprestaram o livro com recomendações e decidi ler.

Não conheço os demais livros de Haruki Murakami. Li “O Incolor” e, sinceramente, não achei nada demais.

A história não surpreende: Tsukuru Tazaki, o protagonista,  é um homem solitário, perseguido pelo passado. Na época da escola, morava com a família em Nagoya e tinha quatro amigos inseparáveis. Já adulto vai para Tóquio – onde trabalha no projeto e na construção de estações de trem – e namora uma mulher dois anos mais velha. Mas não se esquece de um trauma sofrido dezesseis anos antes: inexplicavelmente foi expulso deste grupo fechado de amigos e nunca mais os viu. A trama trata exatamente desta revista ao passado, da busca por explicações  e do reencontro com aqueles que o abandonaram.

Em praticamente todas as sinopses que eu li fala-se de uma jornada que leva Tsukuru a locais distantes, fala-se de  uma transformação espiritual na busca pela verdade… Mas eu achei bastante morno, sem graça e até previsível. De emocionante não tem nada não; pelo menos foi este o meu sentir.

Como o autor está realmente na crista da onda, vou ver se animo a ler um outro famoso romance em forma de trilogia chamado  1Q84. Aguardemos. 🙂

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Tchau, querida democracia

Leonardo Isaac Yarochewsky é professor de Direito Penal há mais de 20 anos. Mestre e doutor em Ciências Penais pela UFMG, foi meu segundo professor de Direito Penal. O primeiro foi o já falecido Jair Leonardo, famoso criminalista mineiro.

Foi o professor Leonardo Isaac Yarochewsky, no entanto, que me despertou para o Direito Penal. Lembro-me com clareza dele falando sobre princípios penais constitucionais, sobre a história do Direito Penal. Dava pra perceber sua paixão pelo tema, o que me contagiou. E sou orgulhosa por ter sido elogiada pelo professor por minhas redações e trabalhos. Eu me dedicava, gostava das aulas, de estudar a matéria e a ele sou grata por isso.

Então me senti amparada (o ano de 2016 não foi mole, galera!) quando tomei conhecimento que o professor Leonardo Isaac Yarochewsky dava guarida às minhas opiniões em relação ao falso impeachment promovido contra a presidenta Dilma.

O livro Tchau, Querida Democracia desnuda a cronologia do golpe de 2016 e grita pela resistência do povo, o que, infelizmente, não foi suficiente para impedir a maldade.

Sua leitura explica o papel da mídia no golpe, o machismo que corrompeu a dignidade da então presidenta, os rumos fascistas que o país vem tomando e vários outros tópicos que permearam o processo ilegítimo. A trajetória do golpe em capítulos.

Fiquei satisfeita em ler a carta aberta ao Presidente da OAB, pois o professor é um expoente do Direito e sua voz tem que ser ouvida e respeitada. Até quando teremos que ver uma Ordem de Advogados, que deveria defender intransigentemente a democracia e os direitos fundamentais, compactuar exatamente com o contrário? É vergonhoso.

E o professor Yarochewsky termina a carta (endereçada ao sr. Claudio Lamachia, Presidente à época da Ordem dos Advogados do Brasil) de maneira fenomenal, pelo que vou me dar o direito de transcrever seu desfecho:

“Tristemente, seu nome ou será esquecido ou será lembrado dentre aqueles que se aliaram as forças conservadoras e autoritárias, a mídia reacionária e golpista, aos interesses escusos dos que fazem coro ao impeachment da Presidenta eleita democraticamente em eleições livres e diretas com cerca de 55 milhões de votos. Senhor Presidente, esteja certo que a história não lhe absolverá.”

Comprem e leiam o livro Tchau, Querida Democracia, do professor Leonardo Isaac Yarochewsky. Entenda o golpe e não compactue com o caminho que o país está tomando nas mãos do ForaTemer golpista.

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Filhos sem Deus

Filhos sem Deus – Ensinando à criança um estilo ateu de viver, de Alejandro Rozitchner e Ximena Ianantuoni

Filhos sem Deus é um livro escrito por um casal, em forma de perguntas e respostas, que traz a opinião dos dois autores sobre questões pertinentes ao ateísmo na criação dos filhos.

Ambos são – obviamente – ateus e, por meio de respostas (cada hora um deles responde a seu modo a mesma pergunta) propõem que se  exponha às crianças, da forma mais clara possível, o que é o ateísmo. Para quem ainda tem dúvidas (arg),  eles demonstram como é possível e factível ensinar às crianças valores educacionais  imprescindíveis fora de uma cultura religiosa, sendo, principalmente, francos com os pequenos.

Achei interessante. Praticamente tudo do livro já havia sido discutido aqui em casa. Até porque nossos filhos já estão bem espertos o suficiente para captarem que mamãe e papai não pensam como a maioria das pessoas ao nosso redor. Então as perguntas chegam a toda hora e nós precisamos lidar com isso.

De qualquer forma, o livro é uma excelente iniciativa do casal. Não se trata de desqualificar quem crê em Deus, mas de abrir espaço de legitimidade para aqueles que vivem um esquema não compreendido, o ateísmo!

 

 

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Luto da família Silva, de Rubem Braga (1935)

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Interessantíssimo este conto, quase uma premonição de Rubem Braga dos idos tempos em que Lula foi governante. O encontrei bem sem querer, fuçando os livros numa nossa incursão pela biblioteca pública de BH. As crianças amam o passeio. Ele fica louco com os quadrinhos; ela com todos os livros no geral. Eu, às vezes cansada dos livros infantis, me distraio com outros, juvenis ou nem tanto.. Sem adentrar no mérito de culpas e responsabilidades, estamos neste momento numa era de trevas. Direitos reduzidos.. Conservadores, religiosos, machistas, misóginos, racistas e homofóbicos no poder. Enfim, o conto volta a ser atual.

 

Luto da família Silva  (Rubem Braga)

 

Assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava morto. O  cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos “Fatos Diversos” do Diário  de Pernambuco, leio o nome do sujeito João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.
João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai  baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós  pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história.
Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos imigrantes,  mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome de Tal”. A família Silva e a família “de Tal” são a mesma família. E,  para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até  as mulheres que não são de família pertencem à família Silva. João da  Silva – Nunca nenhum de nós esquecerá seu nome.
Você não possuía sangue azul. O  sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa  família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família  Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a  família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa  família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mata, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha.
Nossa família quebra pedra, faz telhas de barro, laça os bois, levanta  os prédios, conduz as bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos  navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo. Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política…
(Junho, 1935)
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O maior espetáculo da Terra, as evidências da evolução

Leitura indispensável. Não há como não ler O maior espetáculo da terra, de Richard Dawkins.

Dele eu já havia lido Deus, um delírio, O gene egoísta e  O Capelão do Diabo. 

Dawkins tornou-se uma figura internacionalmente conhecida pela sua cruzada em defesa do ateísmo e da supremacia do pensamento científico sobre as concepções místicas do mundo. É autor também de um trabalho que renovou o entendimento da obra de Charles Darwin. E se meu apreço por ele já era grande, ficou ainda maior.

O maior espetáculo da terra  começa nos mostrando que não há achismos ou intuições no que diz respeito a evolução. Que não há, na verdade, uma teoria da evolução, mas um fato, incontestável como qualquer outro fato da ciência. E explica o motivo.

Ele traz uma série de experiências com a criação  de animais, cultivo de plantas, nos define a seleção natural e a artificial; clareia, de maneira relativamente simples, como evidências moleculares mostram que o ancestral que tivemos em comum com os chimpanzés viveu há cerca de 6 milhões de anos ou um pouco antes. Fala sobre o mito do elo perdido na evolução humana, explica pormenorizadamente nossa árvore de parentesco não só com os primatas (como poderíamos pensar), mas com todos os animais existentes hoje. Ou seja, nós todos viemos de um único ser. Dawkins menciona os negadores da história  (que só proliferam) e também de como a paz e a alegria, mas também a dor e o sofrimento  fazem parte da vida de absolutamente todos os seres vivos.

O último capítulo é lindo. Ele descreve o porquê de haver “grandeza nessa visão de vida”. De haver grandeza na visão naturalista da vida, na vida sem deus. Na vida que não se deu “por acidente, e sim pela consequência direta da evolução pela seleção natural não aleatória – única na vida, o maior espetáculo da Terra”.

 

 

 

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Stephen Hawking – Minha breve história

Pequena auto biografia de Stephen Hawking (apenas 140 páginas e várias fotografias raramente publicadas), Minha Breve História conta a improvável trajetória do autor, desde a infância até o reconhecimento internacional.

O livro é inteiramente escrito por Stephen Hawking, sem ajuda de terceiros, e relata a infância, a descoberta da doença e os desafios pessoais do autor com a iminência de uma morte prematura. Não há dramas em relação à esclerose lateral amiotrófica; pelo contrário, de forma até bem humorada, prefere focar no desenvolvimento de sua carreira e ao afinco com que trabalhava suas descobertas intelectuais.

É interessante ler o próprio Stephen Hawking.  Ele fala sobre o namoro e casamento com a então esposa, as dificuldades e alegrias da vida de recém casado, sobre filhos (com imenso carinho) e não deixa transparecer nenhuma mágoa (se é que teve) sobre os detalhes expostos no filme de 2014, A Teoria de Tudo, cujo roteiro foi baseado nas histórias de Jane Wide, a hoje ex-esposa.

Enfim, leitura rápida, fácil, interessante.

Eu adoro biografias; então indico, com certeza.

 

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O capote (e outras histórias) de Gogol

“Todos nós saímos de O Capote de Gogol”, disse Dostoiévski e foi justamente por causa desta frase que eu tive interesse em ler este maravilhoso escritor. 🙂

Nikolai Vasilievich Gogol nasceu em 1809, na cidade de Poltava.  Sua nacionalidade é motivo de controvérsia, pois sua cidade natal fazia parte do Império Russo na época, mas atualmente pertence à Ucrânia. Como consequência, tanto a Rússia quanto a Ucrânia reivindicam a sua nacionalidade. Muitos de seus trabalhos foram influenciados pela tradição ucraniana, mas Gogol escreveu em russo e sua obra é considerada herança da literatura russa.

Aos 20 anos Gogol conheceu Púchkin (ambos influenciadores de Tolstoi e Dostoiévski), o maior escritor russo de então, e ficaram bem amigos.  Gogol não era político –  ao contrário de Púchkin -, não tinha um programa de ação contra o regime do Czar. Era um homem de preocupações místicas, religiosas. Tinha, pelo que li, um misticismo até doentio.

Seus livros são bem diferentes dos dos famosos escritores russos, os tradicionalmente conhecidos no ocidente. Ele se funda no realismo, mas com um pé inteiro no que seria chamado posteriormente de surrealismo.

O conto “O Capote” é bem interessante; seu protagonista se tornou o arquétipo do pequeno funcionário público russo. Ou seja, foi o primeiro modelo ou imagem deste tipo de funcionário, que, a meu sentir, representa também outros tipos de funcionários públicos, não só os russos e os daquela época.

Também interessantes desta edição da Editora 34 são os contos  “O Nariz”, “Noite de Natal” e “Viy”.

“Diário de um louco” foi o meu preferido (todos da edição da foto): a história narra as aventuras de um funcionário público que nutre uma paixão platônica por Sofia, a filha de seu chefe. Com um humor insuperável, Gogol demonstra que este amor não correspondido (Sofia está noiva de outro) transforma a sanidade do protagonista em loucura. O conto é um diário e à medida que a loucura chega as datas dos escritos vão ficando desconexas.

Em um belo dia ele  “se descobre” rei da Espanha e passa a espalhar a notícia onde quer que vá, iniciando sua derrocada social. Rabugento, reclamão, ele tem grandes idéias, entre elas interceptar a correspondência de dois cachorros: Medji (a cadelinha de Sofia) e sua amiga Fiel. O diálogo das bichinhas é realmente divertido para nós, leitores. Mas não para o protagonista, pois, através dele, ele descobre que sua amada está realmente “enrabichada” (uma das expressões da cadelinha) por seu namorado Tieplov. O apaixonado fica, então, mais perturbado  e se diz rei Fernando VIII. Mais loucuras são proferidas e o personagem acaba na cadeia, onde sofre toda sorte de maus tratos que o fazem desejar que o matem de uma vez. O conto é divertido, mas a parte final traz a reflexão sobre a loucura real e suas consequências.

Nikolai Gogol foi o maior escritor russo da primeira metade do século XIX, introdutor do realismo na literatura russa e precursor de todos os grandes escritores russos que se lhe seguiram.

Não há como não repetir: “Todos nós saímos de O Capote de Gógol”.

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O papa negro, de Ernesto Mezzabotta

Um dos livros mais interessantes que já li foi O papa negro, de Ernesto Mezzabotta. O “negro” não se refere à cor da pele do papa, o que pode parecer à primeira vista a um leitor mais desavisado, mas à batina negra daquele que é eleito pela Congregação Geral para governar toda a Ordem dos Jesuítas em caráter vitalício. Este eleito torna-se, então, o  Superior Geral da Companhia de Jesus. O Padre Geral, como é comumente conhecido,  reside na Cúria Generalícia em Roma

A obra é um romance, porém possui grande valor histórico. Ela conta justamente a história da companhia de Jesus e de Ignácio de Loyola, seu fundador e primeiro Padre Geral.

O autor conta que Loyola era um dos membros dos Templários (que seriam os futuros maçons), duramente perseguidos pelo papado e pela monarquia da época (o papa era Clemente III e o Rei era Felipe, o Belo, da França) e que, devido aos graves problemas enfrentados pela ordem, tratou de criar a sua própria, a seu jugo e leis, fazendo-se crer um convertido em Cristo. Esta relatada conversão é um fato histórico bastante explorado no romance: uma suposta experiência espiritual pela qual passou Ignácio de Loyola.

““Pois bem — prosseguiu o peregrino, fazendo um grande forço, — foi aí que me apareceram os anjos do Senhor e que ensinaram a maneira de guiar os homens e de os conduzir à fé obediência, ao caminho do céu. Os preceitos que eles me ensinaram, meus irmãos, escrevi-os, e tenho-os aqui, — e Loiola mostrou folhas que tinha ao lado. — Com estes “Exercícios espirituais”, escrevi enquanto os anjos mos ditavam, encontrei o modo de reduzir à submissão as almas mais rebeldes, e de fazer com que elas sejam nas mãos do seu diretor espiritual como um cadáver nas mãos do cirurgião. Estas palavras resumiam em si a terrível doutrina da Companhia de Jesus, que Inácio de Loiola devia fundar. “Perinde ac cadaver” — como um cadáver — tal é a forma de obediência impo aos jesuítas.” 

Em 1534, portanto, amparado por uma revelação divina, Ignácio de Loyola e seis fraternos amigos templários  fundam a Companhia de Jesus.

É interessante ressaltar que naquele tempo não havia indiferença em relação às coisas da religião.

“O grande movimento, que se produzira na Alemanha, suprimira os indiferentes e dividira-os todos em duas classes bem distintas: uma, que era constituída pelos que respeitavam e obedeciam à Igreja romana, confessando-se seus campeões; outra, que era formada pelos que se apresentavam para abalar as bases do edifício do pontificado, fazendo ruir com ele todas as velhas instituições que tinham o apoio e consagração da Igreja. Ser indiferente naqueles tempos aos assuntos religiosos seria tão impossível como nos ditosos dias de 1848 conservar-se estranho aos movimentos políticos. Era preciso tomar-se parte 12 naqueles ou nestes; ser por Lutero ou por Clemente, pela autoridade eclesiástica, ou pela liberdade do pensamento. De uma e outra parte, a fé estava de tal modo sobre-excitada, que nenhuma força humana poderia impedir que as discussões fossem tempestuosas, violentas e irreprimíveis. Como acontecera nos primeiros tempos do Cristianismo, o apostolado fazia-se à custa do martírio. Paris, Madrid, Roma, queimavam os protestantes; Londres e Genebra perseguiam e destruíam os católicos.”

Resumindo: gananciosamente Inácio de Loyola traiu seus irmãos templários e aliou-se ao Papa e ao Rei, exigindo da Igreja, em troca do conhecimento gnóstico que os templários possuíam, a criação e o comando de uma nova ordem: a Ordem dos Jesuítas. Esta, por sua vez, trocava informações de peso por indulgências, conseguindo, assim, criar uma grandiosa rede de informantes e angariando, cada vez mais, poder e riqueza. A Companhia de Jesus dedicava-se oficialmente a pregar e a efetuar obras de caridade na Itália, mas, como se percebe do livro de Mezzabotta, tudo não passou de apenas um passo para a conquista de poder, muito poder na Europa dos séculos 16 em diante.

O livro ainda descreve a crua realidade das perseguições religiosas da época;

“A praça de Greve, lugar onde ordinariamente se efetuavam as execuções, estava enormemente concorrida. Tratava-se de uma dessas execuções que eram do particular agrado do povo parisiense. Um fornada inteira de hereges, homens e mulheres, apanhados enquanto assistiam ao sermão de um ministro evangélico, devia passar pelo fogo. Se se tratasse de ladrões ou de assassinos, na multidão não deixaria de haver tal ou qual simpatia pelos condenados. Mas tratava-se de hereges, e contra estes os parisienses, excitados pelas continuadas prédicas, não nutriam senão sentimentos de ferocíssimo ódio. Paris orgulhava-se de ser a cidade mais católica do reino, aquela em que a heresia nunca pudera penetrar, e olhava como inimigos terribilíssimos de toda a população aqueles que, seguindo uma religião diversa, pareciam ter em vista tirar à capital francesa a sua candura de cidade não inquinada de heresia. E contudo, o suplício a que tinham sido condenados os hereges — e que se devia à satânica inteligência do cardeal de Tournon e do padre Lefèvre .— era tal, que deveria comover até um coração de pedra. Com efeito, os desgraçados hereges já não eram condenados só a morrer entre as chamas duma fogueira, suplício horrível, mas de curta duração. Os algozes tinham inventado umas cadeiras, que, amarradas a grandes argolas de ferro, subiam e desciam sobre o fogo, de modo que aqueles infelizes morriam ao cabo de convulsões cem vezes repetidas. É certo que o exemplo de tão horrível crueldade já fora dado aos católicos pelo chefe dos protestantes, por João Calvino, que, discordando de Miguel Servet sobre um ponto da Trindade, o fizera queimar a fogo lento. Assim, naqueles desditosos tempos, os vários partidos, em vez de se imporem pela razão e pela persuasão, competiam em ferocidade; e não havia culpa grave num, que o outro não tivesse…”

O livro, enfim, desnuda a podridão entre as quatro paredes da Igreja e mostra como os jesuítas – especificamente – foram tudo menos os enviados de um Deus em que eles acreditavam. Por meio de envenenamentos (de papas e reis, inclusive), traições, subornos, chantagens e outros artifícios ardis os Jesuítas se tornaram poderosos a ponto de mandar na própria Igreja. Não havia como alguém ficar de pé caso dificultasse o caminho dos jesuítas, cujo poder imperava por toda a Europa e chegou ao Novo Mundo infundindo o terror e dando início à prelazia papal que seria conhecida, anos mais tarde, como Opus Dei.

Vale a leitura; recomendo fortemente.

Sobre o autor:

Ernesto Mezzabotta foi um jornalista e escritor italiano, nascido em 1852 e morto em 1901. Ele trabalhou na Biblioteca Nacional Central de Roma, colaborou em vários jornais e escreveu vários romances históricos e religiosos. O Papa Negro, pelo que pesquisei,  é o único romance traduzido para o português e, pelo menos há algumas décadas, foi incluída no Index Librorum Prohibitorum, ou seja, no Índice dos Livros Proibidos  da Igreja Católica, por conter teorias com as quais a Igreja Católica não apoiava ou não concordava. Tal proibição só devia atiçar ainda mais o formigueiro. 🙂

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O Poder e a Glória – o Vaticano de João Paulo II

Leiam

O Poder e a Glória, O lado negro do Vaticano de João Paulo II

Poucos livros foram tão interessantes para mim quanto este, O Poder e a Glória, O lado negro do Vaticano de João Paulo II, de David Yallop.

O autor britânico foi um dos repórteres investigativos que vasculhou a morte de João Paulo I, Albino Luciani, e escreveu “Em nome de Deus”, o best seller publicado na década de 80 que trouxe à tona a possibilidade do assassinato deste papa, além dos escândalos de cunho financeiro e sexual que ainda apodrecem o Vaticano. Desde então David Yallop fez inúmeras pesquisas, entrevistas, investigações, e obteve muitas informações de dentro do próprio Vaticano. Muitos de seus informantes foram perseguidos pela Cúria e isto é apenas uma gota da maldade que permeia um meio que se diz santo, que se diz porta-voz de deus.

Achei curiosa a informação, ainda no prefácio do livro, que João Paulo II aboliu o quinto passo para a beatificação, que seria a indicação de um promotor fidei – o advogado do diabo na linguagem popular. Explico: para a beatificação ocorrer é preciso que se investigue e se exponha cada faceta da vida do beatificado. E o promotor fidei é aquele que aponta falhas ou pontos fracos nas provas apresentadas. É aquele que levanta as objeções no processo de beatificação. Como você deve saber, Karol Wojtyla ruma à santidade. Ainda em vida já sabia de tal plano e, com certeza, não quis que sua trajetória fosse tão exposta assim.

O Poder e a Glória desnuda a vida do papa João Paulo II, escancarando ainda o campo minado do Vaticano e as práticas nada religiosas adotadas por seus membros. Seria muito interessante que cada católico tivesse acesso a este livro e se dispusesse, sem ódio ou preconceito ao autor, conhecer sua igreja. Eu, batizada na igreja católica ainda bebê, tenho o imenso prazer em dizer que sou uma adulta ateia e que, se pudesse, participaria de um rito simbólico de desbatismo. Afinal, não quero continuar sendo estatística. Não quero ter meu nome associada a esta religião.

É óbvio que não digo que todos os padres (e afins) sejam pessoas más. De forma alguma. Muitos foram e são perseguidos pela própria igreja a que pertencem (especialmente durante ditaduras). Muitos são impedidos de provocar mudanças. Há gente boa e bacana em todo lugar. O problema é que a nata da igreja católica, com seus preceitos arcaicos e absurdos, cujo único fim é o poder, continua mandando em uma massa considerável, determinando como devem se comportar, o que devem fazer com seus corpos, e, trágico: determinando como continuarão pisando nas mulheres. A igreja católica, como bem diz meu irmão mais velho, odeia mulheres. Misóginos a todo vapor a serviço de deus. E em nome deste ser incrível e invisível vamos nos atolando em falsos moralismos, em pudicismos hipócritas, em culpas, e nos esquecendo da moral, da ética, da decência.

Mas vamos ao livro novamente. O autor explica como e porquê Karol Wojtyla fora o papa escolhido, o apoio dos comunistas e, quando da juventude de Wojtyla, a intimidade com o nazismo (fatos negados pela história oficial). Já em outra época da história os conflitos diante da Teologia da Libertação e a perseguição a padres. A omissão frente a genocídios na América Latina, o apoio escancarado a várias ditaduras militares, inclusive a brasileira. Fala-se que padres davam a extrema unção a perseguidos políticos argentinos antes de eles serem jogados ao mar. O livro traz muita informação sobre países latinos cujas histórias pouco conhecemos. É de assustar quanta violência fora cometida em décadas bem recentes, sendo que a igreja costumeiramente estava ao lado do opressor.

A parte dos embustes financeiros ocorridos no banco do Vaticano só não é mais podre que a parte que trata dos abusos sexuais, perpetrados contra crianças e mulheres. Assassinatos, tortura, morte. Quanta desgraça nos colégios internos, quanto sofrimento! A cúpula, os de alta patente, o papa… todos ficavam sabendo das relações doentias que se travavam nestes lugares. Mas ninguém seria punido, nunca. Afinal, não dá para sujar o nome da instituição. E, por ela, o sofrimento alheio seria aceitável.

Deu vontade de questionar todos os católicos que conheço sobre o porquê de eles se renderem a uma instituição criada por homens de caráter falho, que apenas trazem em suas mãos a suposta palavra de deus e se intitulam seus representantes.

Voltando ao banco do Vaticano, foi imensamente financiado por criminosos, integrantes da máfia, assassinos e traficantes. Sua primeira grande leva de recursos foi propiciada por Mussolini, o grande mecenas da igreja católica.

O autor menciona, algumas vezes, que João Paulo II foi, sim, amado. Mas que em alguns países sua imagem foi mais amada que suas palavras. Para constatar isto apresenta pesquisas que mostram que muitos católicos continuam se dizendo católicos, muitos continuam participando dos atos católicos (batismo, primeira comunhão, crisma, casamento religioso..), mas não agem estritamente como católicos. Ou seja: fazem sexo antes de se casarem, usam anticoncepcionais, fazem sexo por prazer, são a favor do aborto em alguns casos, se divorciam, casam-se novamente, fazem tatuagens …

Se a palavra da igreja estivesse realmente morta seria um alento. Porém, ainda que as pessoas ajam em desacordo com as regras eclesiásticas (no que as prejudicam, hipocrisia mode on), a igreja continua influenciando o Estado. E palpita sobre tudo e todos, impedindo, em várias áreas, um avanço real da sociedade.

Enfim, leia O Poder e a Glória, o lado negro do Vaticano de João Paulo II. Leia sem pressa. Passeie pela história da Polônia, do México, conheça mais sobre as ditaduras da Nicarágua, de El Salvador, relembre os acontecimentos nos Bálcãs, saiba quem estava financiando o quê, quando e porquê. Veja o quanto pessoas ‘religiosas’ podem ser perversas, tão perversas quanto os mafiosos italianos. Revolte-se como eu. E espalhe a ideia.

Aproveite e leia a entrevista dada por David Yallop ao Resenhando.com. Muito bacana.

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O Jardim de Ossos

O jardim de ossos

Gostei muito deste romance/suspense.

A autora conta duas histórias que se passam em épocas bem diferentes. Uma nos tempos atuais e a outra na Boston de 1830. E a junção de ambas ocorre quando Júlia Hamill, recém divorciada, se muda para uma grande casa no interior de Massachusetts e encontra enterrado em seu jardim um crânio humano com sinais de homicídio. Na tentativa de entender de quem era aquele crânio e o quê teria ocorrido com a vítima, Júlia alcança as ocorrências do passado.

Já em 1830 a narrativa cuida da vida de um jovem estudante de medicina – Norris Marshall -principal suspeito das atrocidades cometidas pelo Estripador de West End.

O livro passeia bem por lúgubres cemitérios, elegantes mansões e salas de necropsia do século 19 e, além de todo o bem construído romance, podemos conhecer um pouco da realidade das faculdades de Medicina e das terríveis práticas médicas nas pseudo-maternidades do passado.

As duas histórias são separadas por quase dois séculos, mas se desenvolvem paralelamente de forma interessante. O final é bem bolado e surpreendente.

O Jardim de Ossos é de Tess Gerritsen, mulher de ascendência chinesa que cresceu nos Estados Unidos e formou-se em Medicina. Após o nascimento dos filhos começou a escrever e desistiu da carreira médica em razão do sucesso alcançado na literatura.

Vale a leitura.

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