Luto da família Silva, de Rubem Braga (1935)

Interessantí­ssimo este conto, quase uma premonição de Rubem Braga dos idos tempos em que Lula foi governante. O encontrei bem sem querer, fuçando os livros numa nossa incursão pela biblioteca pública de BH. As crianças amam o passeio. Ele fica louco com os quadrinhos; ela com todos os livros no geral. Eu, í s vezes cansada dos livros infantis, me distraio com outros, juvenis ou nem tanto.. Sem adentrar no mérito de culpas e responsabilidades, estamos neste momento numa era de trevas. Direitos reduzidos.. Conservadores, religiosos, machistas, misóginos, racistas e homofóbicos no poder. Enfim, o conto volta a ser atual.

Luto da famí­lia Silva  (Rubem Braga)

Assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava morto. O  cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos “Fatos Diversos” do Diário  de Pernambuco, leio o nome do sujeito João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.
João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai  baixar í  vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os Joões da silva. Nós somos os populares Joões da Silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós  pertencemos, como você, í  famí­lia Silva. Não é uma famí­lia ilustre; nós não temos avós na história.
Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os í­ndios. Depois fomos os negros. Depois fomos imigrantes,  mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam nosso nome.Â É por engano.
Os Silva somos nós. Não temos a mí­nima importância. Trabalhamos andamos pelas ruas e morremos. Saí­mos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. í€s vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de famí­lia. Usamos o sobrenome de Tal”. A famí­lia Silva e a famí­lia “de Tal” são a mesma famí­lia. E,  para falar a verdade, uma famí­lia que não pode ser considerada boa famí­lia. Até  as mulheres que não são de famí­lia pertencem í  famí­lia Silva. João da  Silva – Nunca nenhum de nós esquecerá seu nome.
Você não possuí­a sangue azul. O  sangue que saí­a de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa  famí­lia. Nossa famí­lia, João, vai mal em polí­tica. Sempre por baixo. Nossa famí­lia, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A famí­lia  Crespi, a famí­lia Matarazzo, a famí­lia Guinle, a famí­lia Rocha Miranda, a  famí­lia Pereira Carneiro, todas essas famí­lias assim são sustentadas pela nossa  famí­lia.
Nós auxiliamos várias famí­lias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa famí­lia trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mata, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha.
Nossa famí­lia quebra pedra, faz telhas de barro, laça os bois, levanta  os prédios, conduz as bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos  navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa famí­lia é feito Maria Polaca: faz tudo. Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa famí­lia um dia há de subir na polí­tica…
(Junho, 1935)

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