Vagina, de Naomi Wolf

Da mesma autora já haviam me indicado  O mito da beleza, publicado em 91 e que se tornou referência do feminismo ao analisar a exigência de as mulheres se adequarem a um ideal de beleza e a relação desta exigência com a dificuldade da ascensão ao poder político e social. Não li ainda, mas pretendo.

Sobre Vagina eu sequer havia ouvido falar e quando mencionei em um grupo de amigas, me avisaram que a obra fora bastante criticada nos meios feministas.

Bem, achei a leitura  interessante, com pequenas ressalvas.

De início Naomi apresenta as conexões cérebro/vagina e como estas conexões são a chave para o entendimento do que acontece às mulheres no dia-a-dia. Fora um problema de saúde da própria autora que a instigou para o fato de que vagina e cérebro formam uma rede ou um “único sistema” e que a vagina media a confiança, a criatividade e o sentido de transcendência feminina. O transcendente aqui, na minha opinião, refere-se ao que excede o limite do medíocre, mas em vários outros trechos do livro a autora  faz menção a experiências sexuais que contribuem para um sentido de alegria e interconexão da mulher com o mundo material e espiritual e é justamente esta parte mística que me incomodou na leitura.

Ainda na esteira mística, a  mim me parece pueril o “invocar a deusa” ou trazer à tona o Tantra como solução para os problemas sexuais. Ela mesma diz que não gostaria de trazer à mente imagens piegas dos anos 70 de adoração da deusa pagã em retiros femininos nos parques estaduais americanos, mas é exatamente isto que é feito na parte final do livro. A parte quatro do livro, enfim, parece um manual de auto ajuda, com gurus salvadores de mulheres perturbadas. Não que eu ache que práticas sexuais antigas relatadas pela tradição taoísta, por exemplo, sejam besteira. O que incomoda é o tom utilizado por Naomi. Soa infantil, soa revista feminina dos anos 80.

Quando fiz yôga, por exemplo (Swasthya Yôga), nos ensinavam que o tantrismo é uma filosofia de características matriarcais, sensoriais e desrepressoras. Só por estas características já podemos pressupor um benefício às mulheres. Então penso que o assunto pode e deve ser tratado, mas sem a parte das energias sobrenaturais. Este papo de sexualidade como caminho para o divino não me cai muito bem.

Gostei bastante das explicações de como funciona a inervação da pelve feminina, de como os nervos pélvicos se ramificam a partir da medula espinhal. A rede neural feminina é bastante complexa e  muito mais sujeita aos efeitos de hormônios do que nos lembramos no cotidiano (trechos de “dopamina, opiáceos e oxitocina).

Há muita coisa boa no livro: Naomi investiga o que sustenta a prática do estupro, passeia pelas vaginas sagradas dos tempos pré-históricos da humanidade, fala sobre as narrativas gregas do Eros e do desejo feminino, discorre sobre a evolução da vergonha da vagina judaico-cristã..  Chama a atenção o capítulo “A vagina vitoriana: medicalização e subjugação”; este período da história transferiu a saúde sexual e reprodutiva das mulheres de classe média das mãos de parteiras para as de médicos homens e, claro, estes arrasaram com suas pacientes, fazendo intervenções precipitadas e às vezes violentas. Não à toa a masturbação feminina era descrita em importantes tratados médicos como incontinência habitual produtora de doenças e muitas mulheres que insistiam na prática sofreram como punição a clitorectomia forçada, voltando dóceis e mansas às suas famílias.

Já no fim do século XIX e início do século XX a contracultura liberacionista começa a defender a sexualidade feminina. O livro faz referência a várias obras a partir de tal época, passando por todas as décadas até a atualidade. Curiosamente, segundo a autora, embora estejamos na era da liberação, pós-revolução sexual, pós feminismo, vivemos uma epidemia de infelicidade sexual feminina. Nossa cultura sente-se muito confortável com isso, inclusive, o que demonstra que a estrada feminina (e feminista) é ainda muito longa.

Enfim, indico a leitura. Apesar dos contrapontos que fiz em relação à sacralidade da sexualidade exposta em alguns trechos do livro, a obra tem muita pesquisa e informação interessante. Me instigou a ler mais a respeito e a ler também os demais livros de Naomi, amada e criticada entre as feministas. Como bem disse Márcia Tiburi no Voz Ativa de março de 2018 , o feminismo não é um só. Ele não é universal, é plural, é um jogo de linguagem em busca da desconstrução do machismo. Então.. leiamos todas e tomemos nossas próprias conclusões.

1 comentário sobre “Vagina, de Naomi Wolf”

  1. Gostei do seu ponto de vista, sincero e objetivo. Não li Vagina ainda, e confesso que não está na minha lista. Acho a narrativa dela às vezes forçada e extremista demais. Mas sua resenha me trouxe um talvez rs… Abraços!

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