Passei no mercado, comprei o peixe. Noutro dia peguei tomate maduro, pimentão bonito, desses que dão gosto de cozinhar. Fiz tudo direitinho — não só pra matar a fome, mas porque é um jeito de cuidar, de estar presente mesmo quando o dia é corrido.

Cheguei cansada do trabalho, mas com satisfação de quem deixou algo pronto, esperando. Gostaria de ter feito mais, mas não deu. Perguntei, quase automática, se ele tinha comido. E ele respondeu baixo: “sim, era o que tinha.”

Era o que tinha.

Não foi a frase em si. Foi o vazio dentro dela. Como se todo o cuidado tivesse virado só… opção disponível. Como se não tivesse intenção, nem carinho, nem valor, nem tempo ali. Só “o que tinha”.

Não falei nada. Mas ficou um silêncio meio pesado. Não de briga, de decepção mesmo. Porque a gente sabe que as pessoas às vezes são assim, às vezes não medem palavras, não enxergam o esforço. Mas ainda assim… dói um pouco quando aquilo que você fez com cuidado volta pra você desta maneira.

E aí a gente respira, guarda pra si, e segue. Porque amanhã provavelmente vai ter comida de novo. E, mesmo sem ouvir, a gente continua esperando que um dia se entenda o que realmente “tinha” ali.