Segundamente, pra que eu possa fazer um breve resumo do que foi 2016, preciso respirar fundo e revirar sentimentos que eu jamais pensei pudesse sentir dentro do meu país, junto dos meus conterrâneos, amigos, irmãos. É que o ano de 2016 abalou sobremaneira tudo o que eu pensava sobre o país, seus cidadãos.. e pior: sobre as instituições e o Direito aplicado na terra que é de quase ninguém.
Preciso mencionar 2014, quando a já presidente Dilma ganha a reeleição e fere de morte o orgulho da oposição. Vale dizer que a campanha já foi tensa e nós aqui de casa já estávamos notando um crescente pensamento fascista e conservador nos votantes do eterno derrotado Aécio Neves. É óbvio que nem todos os eleitores do PSDB são, individualmente, fascistas malucos, mas – podes crer – a massa formada por estas pessoas é de um reacionarismo assustador. Pois então, a campanha foi delicada e a presidente venceu (comemoramos aos gritos e ouvindo O baile do pó Royal – as crianças amaram!).
Os perdedores não deixariam por menos, já que são historicamente donos do poder e a ele simplesmente decidiram voltar; para isso, numa manobra rasteira, num acordão com as instituições que nos deveriam proteger, articularam a queda de Dilma, via um falso e demente impeachment. Descobrimos neste momento os grandes traidores da democracia, apoiados justamente – pelo menos em grandessíssima parte – pelos eleitores do candidato suplantado. O ano de 2015 foi preocupante, mas ali ainda eu acreditava na Justiça. Ainda naquele momento eu cria nas pessoas que estavam nomeadas e empossadas como defensoras da Constituição.
2016 foi diferente. A cada dia um sopapo e um hematoma diferente. A cada dia fatos consternantes doeram no peito. Pela primeira vez senti dor física ao ver a perseguição política tomando forma e ao perceber o retrocesso ao qual chegaríamos. No dia 17 de abril de 2016 presenciamos a escória política dando início ao processo. Reunidos em família – alguns de vermelho – vimos um bando de sem-vergonhas admitir formalmente o processo de impeachment. A sessão política seguiu noite adentro, sendo interessante lembrar que a maior rede golpista dedicou toda sua programação a televisionar protestos contra o governo. Neste dia, de tragédia mais que anunciada, houve mais conflitos e bate-bocas familiares.
Uma parcela da população não se conformou – e não se conforma – com o golpe e foi pra rua.


Fotos de quando participamos de um protesto do MST pelo centro de BH, subindo a rua da Bahia e chegando até a Praça da Liberdade – 01/05/2016.
Infelizmente, em 12 de maio de 2016, o Senado decide manter o processo de impeachment e afasta provisoriamente a presidente Dilma, que fez uma peregrinação pelo país e recebeu suporte de seus eleitores.
As 3 últimas fotos são de uma manifestação de apoio ao governo – dia 20 de maio de 2016, dia em que Dilma esteve em um encontro no Othon Palace de Belo Horizonte (Faculdade de Direito e Avenida Afonso Pena).

Foto tirada no dia 20 de maio de 2016, por um jornalista, de dentro do hotel.
Me entristeceu muito que os protestos e manifestações de apoio foram se arrefecendo ao longo das semanas; parece-me que o abalo do afastamento e a certeza da queda nos fizeram calar definitivamente. O golpe, enfim, foi muito bem orquestrado e o povo, mais uma vez, muito aos moldes de 64, se deixou cair.
Os dias, semanas e meses se passaram e o fajuto impeachment pôs abaixo o mandato legítimo de Dilma, assumindo a presidência o traidor Michel Temer: traidor não só de Dilma, mas traidor do povo que havia colocado os planos de governo do PT em pauta. Enfim, é, sim, com muita tristeza que me lembrarei de 2016. Pelo menos neste campo da política, já que não posso me queixar dos demais aspectos de minha vida. Todo o resto foi muito bem, ainda bem. E por isso sou bastante agradecida. Não sei bem a quê ou a quem sou agradecida. Mas sou.
Muito interessante, aqui você encontra a cronologia do golpe.
Um feliz 2017 pra nós. Que o povo encontre forças, sabedoria e coragem para trazer o Brasil de volta aos trilhos da democracia.



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